O nascimento de Dioniso

 

 «Há muito, muito tempo, ainda antes de Gregos e Romanos se expandirem pelas margens do Mediterrâneo, as suas divindades e heróis deambulavam pela Terra e pelo céu. Sobre o solo pedregoso, da morada celeste, o monte Olimpo, as oliveiras e as vinhas cresciam, prósperas; ali se produziam vinhos capitosos e doces, com um leve sabor a resina, que os deuses tanto apreciavam. Um deles, Dioniso, filho de um deus e de uma mortal, apreciava particularmente os preciosos néctares. Turbulento, imprevisível, sonhando unicamente com festas, danças e teatro, ele não se embriagava, aliás, apenas com vinho - os seus dias eram uma sucessão de bebedeiras, excesso e lúxuria... Mas ninguém se admirava destas curiosas tendências, tão envolto em prodígio fora o seu nascimento...

Naquela época, a cidade de Tebas, na Beócia, resplandecia. Uns ares do oriente, com perfumes da Fenícia sopravam aobre a planície e refrescavam as encostas do monte Parnaso, não longe dali. Na cidade, todos se maravilhavam com a beleza da princesa Sémele. A fama da sua graciosidade e elegância já tinha extravasado muito para além das portas do palácio, onde Cadmo, o rei, seu pai e Harmonia, a rainha, sua mãe se extasiavam dia e noite perante a sua filha. Naturalmente, em breve os pretendentes começaram a afluir, mas todos eram rejeitados, na esperança de que um mais belo, mais poderoso, mais rico, viesse porventura apresentar-se. Ora, aconteceu que um dia o próprio Zeus chegou ao palácio... Vinha admirar a jovem Sémele, cuja beleza, dizia-se era exaltada até ao cimo do Olimpo. Maravilhado perante tanta graciosidade, logo a seguir possuído de um violento desejo, Zeus decidiu torná-la sua... e desta união nasceu alguns meses mais tarde - muito antes do tempo - um bebé frágil e nervoso.

Naturalmente, estes amores e o nascimento de uma criança não deixaram de provocar os ciúmes de Hera, a esposa de Zeus, exasperada pelas inúmeras transgressões do seu divino esposo. Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia deixa lá a asa... A deusa decidiu vingar-se. Escutando apenas o seu coração ávido de represálias, decidiu que desta vez os seus sombrios desígnios seriam realizados pelo próprio Zeus...

 

Tomando a aparência da ama que Sémele escolhera para seu filho, Hera aproximou-se dela. Desempenhando perfeitamente o seu papel, tomou conta do bebé, prodigalizando conselhos sobre a sua educação e ousando mesmo expressar algumas críticas: a criança não via o pai tanto quanto seria de desejar... Era boa altura para tomar consciência da importância e do poder dele... Porque não fazê-la contemplar Zeus em toda a sua glória e esplêndor? Era o deus do Céu e da Terra, dos outros deuses e de todos os homens! Para levar a bom porto o seu maquiavélico plan, a falsa ama embalava a criança enumerando os vários poderes de seu pai: "Senhor da chuva e dos ventos, da neve e do bom tempo; senhor dos poderes da vida, da fecundidade, dos frutos e das colheitas; senhor das regras e das leis, garante de todos os juramentos e de todos os tratados; protetor dos fracos e dos mais pobres; senhor da família e do lar; senhor da amizade e da hospitalidade; senhor dos exércitos e da coragem, da estratégia e da vitória... Mas também senhor da tempestade, dos raios e das trovoadas!", acrescentou ainda com voz sepulcral enquanto a criança por fim adormecia.

 

Ladainha surpreendente, na verdade, mas que acabou por convencer Sémele... De fato, o fruto dos seus amores pelo maior de todos os deuses devia tomar consciência do prestigio e do poder do seu pai. Para isso, iria ter com o seu divino amante para persuadi-lo a aparecer perante o filho em toda a sua grandeza. Foi fácil... Que amante não prometeu algumavez - como Zeus logo que viu Sémele - realizar todos os desejos da sua amada? Então, envolto em luz, ostentanto todos os atributos do poder, Zeus atravessou o palácio e aproximou-se do filho. À sua passagem, todos se inclinavam em sinal de vassalagem, sem ousar fitá-lo. A luz e o ruído eram terríveis, como igualmente o era a impressionante estatura do rei do Olimpo. Muitos pensaram que a criança, ao ver assim o seu pai, iria adquirir algum daquele poder e passar a estar incluída na linhagem real.

 

"Como são ingénuos!", murmurou Hera. Ela sabia que ninguém, nem mesmo o filho do deus, poderia sobreviver a uma tal confrontação: qualquer mortal que contemplasse aquela magnificência morreria imediatamente... e aquela criança era apenas um semi-deus - logo, mortal...

 

Quando Zeus se aproximou do berço, a criança, vigiada pela mãe, areceu mais agitada do que o habitual. O ambiente era pesado. de súbito, a luz resplandecente de um relampago iluminou a noite, enquanto o céu e a Terra começavam a tremer... Um raio escapou-se do punho fechado do deus, que tentou retê-lo! Mas, apesar de todos os seus esforços, o raio atingiu Sémele e o bebé! O fogo divino queimou tudo. Num segundo, a própria grandeza de Zeus roubava-lhe a sua amada e o seu filho!

 

Mas isso era sem contar com os infinitos recursos do poder divino... Porque Zeus amava o filho e queria que ele vivesse. No próprio momento daquela curta e terrível tempestade desencadeada pelo seu poder, ele conseguira agarrar na criança sem que ninguém, nem mesmo Hera, se apercebesse disso. E apertara-a com tanta força contra a sua perna que na sua coxa se abriu um golpe para dentro do qual o recém nascido deslizou. A seguir, o deus coseu ele próprio o seu ferimento.

 

 

Durante três meses, houve quem notasse uma excrecência que deformava ligeiramente a coxa de Zeus, mas ninguém ousou referir o fato, tal a sua irritabilidade desde a morte da sua amada... Depois, um dia, os mais próximos do deus assistiram a um acontecimento extraordinário: a coxa do deus abriu-se e, uma vez mais, Dioniso - cujo nome significa "duas vezes nascido" - veio ao Mundo! Mas desta vez nasceu forte e vigoroso e manifestou desde esse instante um furioso apetite de viver...»

 

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